
Por Felipe Vilasanchez
Conciliar a família, o trabalho, a vida social e os treinos não é fácil. Cumprir com todos os compromissos, ao mesmo tempo em que o corpo se recupera, para, em seguida, arrumar tempo para pedalar, sem deixar de dar atenção para a família e os amigos é uma verdadeira engenharia de planejamento. Mas não é impossível – basta ter vontade e dedicação.
“É difícil por causa da rotina. O horário que sobra para treinar é de manhã, bem cedinho”, conta o engenheiro Ricardo Pupo, de 31 anos, que trabalha das 9h às 19h. “Tudo é uma questão de adaptação, porque o corpo entra no ritmo de dormir cedo e acordar cedo. À noite, às 20h30, 21h, já estou com sono, porque o dia começou cedo. A maior dificuldade é entrar na rotina, depois fica fácil”, completa.
Assim como Ricardo e a maioria dos ciclistas amadores, Antonio Paulo Medeiros Junior, 47 anos, é mais um que reserva o horário da manhã para os treinos e também sentiu as dificuldades da adaptação. “Quando eu comecei a treinar às 5h, achei que não conseguiria, mas a gente vai se envolvendo, e isso é muito salutar”, pondera o empresário, que durante a semana pedala das 5h às 7h. Muitos praticantes do ciclismo madrugam para pedalar por causa do trabalho, que muitas vezes acaba tarde, quando não há mais segurança nem luz suficiente para treinar de forma ideal.
No entanto, não é apenas com o horário de trabalho que se deve lidar no dia-a-dia ciclístico. A família é outro fator de importância da vida do atleta e não se recomenda trocá-la pelos treinos. “Eu procuro incluir minha família nos eventos ciclísticos”, conta Junior, que transforma viagens para provas em turismo para sua família. “Eu planejo meus treinos ao longo do semestre junto com minha mulher. Nós fazemos um pacto”, ensina ele, que, além de ter que convencer a mulher, precisa também negociar o pedal com os filhos: “Quando não tem corrida, pedalo de sábado ou de domingo. Mas quando tem alguma pela frente, pedalo de sábado e domingo”, relata.
Já Pupo passa por outra situação, que muitas vezes não abre brechas. “Com um filho pequeno, você dorme muito mal, o que acaba prejudicando os treinos. Mas é muito bom curtir o filho”, pondera o pai de Enzo, de sete meses.
Porém, a vida de ciclista amador também traz suas vantagens, como a admiração de colegas de trabalho e o respeito dos próximos pela dedicação e compromisso com o esporte. “No trabalho, as pessoas descobrem que você treina e compete e admiram isso, te entendem, não fazendo você trabalhar até tarde”, conta Ricardo, que afirma trabalhar melhor por causa do pedal: “Nos dias em que eu não treino, fico estressado, de mau humor e as pessoas percebem isso. Quando você se acostuma, sente necessidade”.
Mas, mesmo assim, a preguiça não é deixada de lado. “Você fica torcendo para chover. Fica procurando uma desculpa, mas também não quer deixar de ir”, confessa Junior, que já faltou a treinos por cansaço e também por ter tido compromissos no dia anterior e não ter conseguido acordar no dia seguinte.
Por isso, deve-se ter responsabilidade também em relação à vida social. “Às vezes você tem que voltar mais cedo ou deixar de ir a festas, um jantar, um casamento. Mas é importante conciliar, se não você perde o contato com os familiares, os amigos”, contrapõe Pupo.
Mesmo com os compromissos, treinar de forma séria não tem segredo, desde que se tenha em foco o que é mais importante para si próprio, além de força de vontade e prazer no que se faz. “Eu levo os treinos muito a sério, mas a prioridade é a família, o trabalho e o ciclismo”, enumera Junior. “Quando você se acostuma, sente necessidade”, afirma Pupo, que compartilha seu ponto de vista com Junior: “A gente vai se envolvendo, e isso é muito salutar”.
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